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Cesar Missioneiro nos traz um pouco de história do Milho

As viagens transatlânticas de 1492 tiveram como consequência a unificação genética e alimentar do planeta.

Não foram só pessoas que colonizaram a América, mas também flora e fauna viajaram juntas. De um lado o trigo, cevada, arroz, café, cana-de-açúcar, de outro o milho, mandioca, batata, chocolate, etc. Neste primeiro momento da epopeia dos exploradores europeus, as plantas americanas produziram no Velho Mundo mais fartura do que o ouro e a prata, foram os ameríndios que legaram a toda humanidade o resultado de um trabalho milenar de domesticação vegetal do milho, o ouro entre os vegetais.  Quando a mãe natureza lhe concedeu a cor dourada já revelava ao mundo a nobreza, a importância econômica e nutricional que o milho traria para a perpetuação da espécie humana.

É na simplicidade de uma roça, no fundo de um rancho de taboas escurecidas pelo tempo, que se tem a exata experiência da riqueza desta mina vegetal. A semente se consegue ali mesmo, no bolicho do Bonifácio ou lá no bodegão. Os mais prevenidos guardaram semente do ano anterior, espigas escolhidas a dedo, descascadas e bem guardadas para não carunchar. As vezes penduradas numa cozinha de chão, protegidas pela fumaça, são escolhidas espigas grandes com carreiras retas e sabugo bem preenchido. Se debulha num balaíto (balaio pequeno) de taquara, com o cuidado de separar os grãos menores do pé e da cabeça da espiga, que se dá para as galinhas que são bichos que matam a fome dos homens todos os dias, ou aos porcos que são bichos de futuro, ou ainda para parelheiros porque dizem que ajuda a ganhar a carreira. Os sabugos desta operação jamais se joga ao fogo, se deposita numa encruzilhada bem no meio da estrada ou no campo num lugar tranqüilo que não passe enchente, sempre ao clarear do dia.

 Um bastão de madeira com uma ponta achatada ou com um artifício de metal encaixado na mesma ponta chamado de “chacho”, pendurado ao ombro uma tira de embira ou couro prende lá pela altura da cintura uma sacola de couro ou de pano chamada saracuá, uma roça carpida ou uma tigüera queimada chamada de “coivara”, pequenas covas com 4 a 5 grãos que podem ser amarelo dourado, mesclado com roxo, branco e até preto, de vários tamanhos,  e lá pelos três meses o pé de milho já possui espigas verdes que podem ser consumidas cozidas ou assadas. Lá pelos quatro meses está pronto para a silagem quando o pé e as espigas são picadas, armazenadas de forma especial para alimentar o gado. Mais dois meses, as espigas que serão colhidas inteiras já estarão secas e os grãos de milho serão espalhados por toda a terra para alimentar todas as espécies de animais criados em cativeiro, que se transformarão em alimento humano, o milho direta ou indiretamente irá alimentar os humanos.

Do grão se extrai a farinha e a farinha de amido, que posterior podem se transformar em óleo comestível, álcool combustível, sacarose, dextrose e muitos outros sub-produtos do milho, o pão de milho, o bolo de fubá, a broa, a quirera, a canjica, a polenta, o angu, o biju, e o cuscuz. Observem que o milho pode ser consumido continuamente por longo tempo, pelos animais, seja em grão ou majoritariamente nas rações sem lhes causar distúrbios nutricionais.

Do restante da espiga, a palhada, se dá aos animais mais velhos como touros, bois carreiros, vacas de leite, os de apetite mais voraz. O famoso sabugo, também consumido pelo gado, no passado teve mais duas utilidades, fazer fogo e foi por longos anos o precursor do papel higiênico.

O milho, planta de origem mexicana foi denominada pelos espanhóis, de “maíz”, palavra do dialeto taino, estes conheceram o milho nas Antilhas. Na America Central, tamanha era a importância do milho que muitos povos o consideravam sagrado, a religião do povo Maia dizia que o homem fora feito do milho.

Cristóvão Colombo provavelmente foi o primeiro europeu a conhecer uma espiga, um pé de milho e introduzir na Europa. Os portugueses espalharam o nobre cereal pela Ásia. Este com sua enorme adaptabilidade se tornou companheiro inseparável dos exploradores e colonizadores em diferentes regiões do Planeta como Canadá, Estados Unidos, Rússia e terras meridionais da America do Sul.

Monteiro Lobato teve a feliz inspiração de incluir na sua obra de ficção infantil brasileiríssima, “o sítio do pica-pau amarelo”, o personagem de uma espiga de milho que ao criar vida se chamou Visconde de Sabugosa, representante vegetal do cotidiano rural que faz as delícias da imaginação infantil.

Certa vez um episódio curioso ocorreu num cartório de registro civil no interior do Maranhão, um caboclo procurou o cartorário para registrar seu segundo filho, ao ser indagado do nome da criança o caboclo com seu peculiar sotaque respondeu: É feijão, o cartorário diz que isto não é nome de gente, o caboclo retruca – É sim, pois o mais velho se chama É milho.  Na minha terra sulina, certa vez um homem rural destes de mão calejada disse; “quando os tonéis estiverem cheio de banha, o varal pesado de charque e o paiol cheio de milho estou pronto para a guerrear contra o inverno”. Algumas formas para se obter um milhão a partir do milho: a- Fertilizar bem a terra para obter um milho bem grande. B- 30 ha à 35 há produzem aproximadamente um milhão de quilos de silagem de milho. C- 30.000 sacos de milho ao valor médio de hoje equivale aproximadamente a um milhão de reais.

Medidas antigas: 1 saco de milho de 60 kg equivale a 2 alqueires de terra plantada e se colhia 400 sacos. 1 alqueire equivale à 4 quartas. Uma quarta equivale a 7,5 k de sementes e a 4 salaminhos (morgo). Era muito usada a medida de 1 lata, que se fosse de querosene seriam 18 litros, se fosse sementes de milho seria 15 k, que equivale a meio alqueire de terra plantada.

Oração do Milho

Senhor nada valho.

Sou a planta humilde dos quintais pequenos e das lavouras pobres.

Meu grão, perdido por acaso,

Nasce e cresce na terra descuidada.

Ponho folhas e hastes, e se me ajudares, Senhor,

mesmo planta de acaso, solitária,

Dou espigas e devolvo em muitos grãos

O grão perdido inicial, salvo por milagre,

Que a terra fecundou.

Sou a planta primária da lavoura.

Não me pertence a hierarquia tradicional do trigo

E de mim não se faz o pão alvo universal.

Sou a broa grosseira e modesta do pequeno sitiante.

Sou a farinha econômica do proletário.

Sou a polenta do imigrante e a miga dos que começam

A vida em terra estranha.

Sou apenas a fartura generosa e despreocupada dos

Paióis.

Sou o cocho abastecido donde rumina o gado.

Sou o canto festivo dos galos na glória do dia que

Amanhece.

Sou o cacarejo alegre das poedeiras à volta dos seus ninhos.

Sou a pobreza vegetal agradecida a Vós, Senhor,

Que me fizestes necessário e humilde.

Sou o milho.

(Cora Coralina)

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