dentro

O Charão e o Pinhão

Chegou o outono e com ele as nuvens

De peito roxo e charão.

Eles prenunciam o inverno,

Nós, nos despedimos do verão.

Eles vem prá procriar e comer pinhão,

E nós vamos nos aquecer nas lãs e fogo de chão.

Eles vêm das bandas do peperi-guaçu,

E além do rio Paraná,

Das florestas da Argentina,

Todos os anos vem para cá.

São bandos tão grandes que o sol chega a tapar,

Quando pousam nos pinheiros fazem os galhos tremer

E as pinhas estourar.

De tão alto o alarido,

O alarde festivo, lhe rendeu o apelido,

Papagaio Charão, vai aprender a falar!

Este ritual milenar está cada vez mais encolhido e seria irresponsável atribuir á isto ou àquilo, a pequena quantidade de papagaios que vem procriar nos ocos das caneleiras, das bracatingas, das murtas, e ocos de outras tantas madeiras das matas de araucária da Serra do Planalto Catarinense, o fato que hoje, os bandos são infinitamente menores para alegrar os pinheirais.

O papagaio charão e o peito-roxo se adaptam espantosamente ao cativeiro a ponto de mesmo solto nunca mais voltar a voar, tem um caminhar peculiar, pois tem o segundo e o terceiro dedo dirigido para frente e o primeiro e o quarto para traz o que lhe dá firmeza extra ao se agarrar nos galhos e equilíbrio para ficar em um só pé enquanto segura o pinhão com o outro e habilmente o descasca com o potente bico, sua língua grossa e carnuda lhe permite imitar a voz humana, mas o que intriga alguns pesquisadores é o grau de iniciativa que alguns papagaios apresentam, pois o aprendizado vai desde palavras isoladas até letras musicais com afinação, pedem comida, obedecem comandos, reconhecem pessoas, se alarmam aos estranhos, parecem realmente desenvolver algum raciocínio próprio.

Em 1511, a nau Bretoa saiu do Brasil rumo a Portugal com um carregamento de pau-brasil e 15 papagaios. Imaginem o sucesso que estas amáveis aves falando em tupi-guarani, fizeram na Europa. Nestes tempos passaram a existir cartas geográficas com designação às terras recém descobertas, “Terra dos Papagaios”. A magnífica plumagem colorida certamente inspirou as cores da bandeira brasileira.

É com a chegada dos Charãos e dos pinhões, que sentimos o ar fino e mais frio do outono nos treinando para invernia. Um sentimento espontâneo que somente os serranos conhecem, nos estimula ao aconchego, á proximidade com as pessoas que amamos, nossas papilas pedem sabor aos vinhos, ao pinhão, as sapecadas e paçocas, o milho cozido ou assado, o fogo de chão, o cheiro milenar da fumaça de gravetos quando nas manhãs da serra se principia o fogo no fogão à lenha, um café preto de “tingir caneca”com gotículas de “pinga pura” numa aconchegante cozinha campeira.
Assim é a Serra Catarinense Brasileira.

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