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Encomendação das Almas

A Quaresma, como descrevemos na edição passada, é tempo de recolhimento, reflexão e jejum voluntário de bebida, alimento ou o que esteja na mente como penitência. Este é o período de maior consternação que todos os cristãos devem ter e sentir, em respeito a história de Jesus, afinal é quando nos dedicamos à morte e a ressurreição de Jesus.

Dá para imaginar, nas sombrias e ignorantes cidades da Europa medieval, como as superstições e assombrações tomavam conta do imaginário do povo e é deste período na região ibérica o ritual tétrico da “Encomendação das Almas”. Este é um antiguíssimo costume religioso hoje em desuso mas esteve presente em nossa cultura até cinco décadas atrás. A “Encomendação das Almas” consistia de um grupo de pessoas, homens e mulheres adultos, que saíam sempre à noite, durante toda a Quaresma visitando as casas. O canto lúgubre cantado por todo o grupo em voz firme e alta, pedia em favor dos mortos para que se livrassem de suas penas infernais e do purgatório, ao som somente da matraca e sem algazarras pois se tratava de um ritual de respeito que mexia com os mortos, as almas penadas.

Na região do Cerro Pelado, o último “Encomendeiro de Almas” da região serrana, foi o senhor Izequiel Ferreira (tio Zaqué), sua esposa D’aluz Ferreira e doze filhos. Tio Zaqué, homem extremamente pobre vivia da caça e doações dos vizinhos. Moravam asilados, todos num rancho de costaneira com apenas duas peças, coberto com esteira de taquara e por usarem apenas fogo de chão, por onde andavam exalavam forte cheiro de fumaça, não tinham camas, dormiam no chão que era forrado com a folhagem de vassouras do campo. Tio Zaqué e a família mal frequentavam a igreja e todos eram analfabetos porém traziam em suas simplórias mentes a necessidade de executar tão singular compromisso religioso. Todas as quintas e sextas-feiras à noite, se ouvia ao longe por entre os capões de mato o eco da voz forte e estridente daquele grupo singular e comprometido com as orações e versos cantarolados por horas ininterruptas pelo tio Zaqué, tia D’aluz, o Flordivino, a Zola, a Izarina e o restante da família. O canto consistia em uma mistura de orações católicas com frases de cunho religioso e versos de improviso. Passavam por 3 a 4 casas por noite, dependendo da distância, normalmente não entravam a não ser que estivesse chovendo, mas também era comum tomar um café e algum alimento, depois era pisar no carreiro até o destino seguinte, voltavam para casa, altas da noite com a consciência de tarefa cumprida.

Percebe-se na sociedade brasileira atual, a tendência de extinguir em poucas décadas costumes milenares, especialmente os de cunho religioso que vão entrando em desuso. Esta pode ser uma característica desastrosa, pode estar dando indícios de uma sociedade fraca nas suas tradições e isto fará com que outros costumes relevantes ou não também desapareçam da história de todo um povo.

Por: Cesar Missioneiro

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