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Quaresma

A Quaresma é um tempo onde se misturam religiosidade, folclore, tradições e superstição. Além da dedicação religiosa, são fatores que fazem parte de uma certa necessidade criativa do imaginário das pessoas de um tempo muito antigo mas ainda recente e ao mesmo tempo longe de se pensar na existência da televisão e da internet que desmistificariam quase que totalmente os apaixonantes e hipnóticos causos de assombração nas rodas de fogo de chão, quando nós outros ficávamos com olhos arregalados, atentos aos gestos e ouvidos colados nos causos dos contadores. Causos de arrepiar as costas e os cabelos mas ninguém ia dormir antes que findasse o último assunto.

Depois da donzela que dançou com o diabo, da procissão de almas no cemitério, do boi tatá que levantou lá no banhado e se deitou na raiz do pinheiro grande, da mula sem cabeça que esbarrou “nos peito do Juca canha”, do lobisomem que rondava o galinheiro da comadre Jandira, contava-se que. . .

. . . Certa feita, um lavrador mui trabalhador e afoito nas tarefas, costumava não respeitar a sexta-feira Santa. Embora repreendido constantemente pela mulher, sempre tinha alguma tarefa para terminar. Certa feita, já era quinta-feira Santa, com a desculpa de que homem trabalhador Deus não castiga, estava o lavrador com os bois na canga lavrando uma área. Ao chegar em casa à noitinha, a mulher lhe pediu pelo amor que ele tinha em Deus e a família, que não fosse trabalhar no dia seguinte e que se ele tivesse dúvida se era ou não pecado, que fosse escutar as voz dos bichos pois seu avô contava que à meia-noite os bichos costumavam falar. Ele não disse que sim nem que não, deu as costas para a mulher, mas era quase meia noite quando o homem chegou pé por pé, sorrateiramente no galpão e não foi pequena sua surpresa ao escutar uma prosa baixinha, afinou o ouvido e escutou quando um dos bois falou para o outro – “Amigo, amanhã sexta-feira Santa é um dia sagrado, mas vamos ter que trabalhar de novo. Porquê? Perguntou o outro, o primeiro respondeu; É que eu soube que nosso patrão vai morrer e amanhã teremos que levar o caixão até o cemitério. O homem caiu de joelhos e aos prantos pedia perdão à Deus, aos familiares e aos bichos por ter sido tão cruel, desrespeitador da história de Cristo e ainda abusava da obediência dos animais.

Certamente Deus, que não é um ser de vingança, aceitou o arrependimento do lavrador e, conta-se que naquela sexta-feira Santa e nas seguintes, os bois daquele homem jamais foram encangados. Não esqueçam que para o amanhecer do sábado de Aleluia é dia de assaltar galinheiros e malhar o judas, o traidor Costumes ainda sobreviventes em algumas regiões do Brasil – Este nosso Brasil, maior ninhal da diversidade racial do planeta.

Por: Cesar Missioneiro

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